
Menina grande do interior, se admira com as luzinhas que vê ao longe, da janela da cidade grande, nem tão grande. Noite escura, luz distante, momento de contemplação. É a si que ela contempla. Da janela lhe bate o vento, não tão puro nem vivo como é o vento de onde veio.
No sexto andar, de sorriso levemente estampado no rosto, ela vê a cidade que adotou. Orgulho de si é o que sente, por que não? Saiu de casa aos 17 anos, sozinha com a mala enchida de sonhos, ilusões. Foi bater em Recife, alumbrada se desviou. Longas noites vendo a amanhecice do dia, sentindo nos pés a areia branca da praia, deixando-se tomar pelo vento forte e frio da primeira brisa da manhã. Na sua frente, o mar. Menina do sertão, contemplando o mar. Na ironia que impregna a vida, deram-lhe o nome da filha de iemanjá, rainha do mar. Era ela o mar do sertão. Naquelas horas lentas na praia, olhava pro mar ansiando paz, buscando onde se amparar. Ela só tinha a si, e não era pouco (mas ela não sabia ainda).
A cidade grande, tão grande, lhe fez solitária de tudo o que tinha (ela própria). Conheceu pessoas e pessoas, carregando na fala a marca do seu sertão. Nos olhos, a curiosidade de ver o mundo e achar o seu lugar. Ficou à deriva com a mala vazia de tudo o que nela levava, as ilusões forjadas. Em toda a sua perdição, nunca deixou de ser a menina do sertão de lampião. O jeito simples e humilde não escondiam sua personalidade guerreira. Era uma sobrevivente, e ela sabia. E a vida lhe fez forte dando-lhe tantas e tão grandes adversidades. Foi vencendo todas, uma a uma, sem perder a doçura de seu sertão. Mas não foi na cidade grande, tão grande, que encontrou a felicidade. No Recife das ilusões forjadas, aprendeu a viver daquele jeito que se deve aprender: sofrendo o pão que o pobre do diabo amassou. A mala, esvaziada dos sonhos, foi se enchendo de aprendizado. Num vôo mais longo, seguindo o instinto do sabiá (que "no sertão quando canta me comove, passa três meses cantando e sem cantar passa nove, porque tem a obrigação de só cantar quando chove"), foi bater em Aracaju, cidade pequena-grande que adotou pra morar. E do alto do sexto andar contempla-se olhando ao redor. "Eu cheguei lá", é o que pensa sem pestanejar, com vento mirrado lhe ardendo os olhos. Pensa no sertão, mas não sente saudade. Ele não está lá no interior de Pernambuco, está dentro dela. Olha pras luzinhas pensando no caminho que percorreu até ali e sente escorrer em sua face a lágrima da redenção.
Autora: Simone Pimentel
No sexto andar, de sorriso levemente estampado no rosto, ela vê a cidade que adotou. Orgulho de si é o que sente, por que não? Saiu de casa aos 17 anos, sozinha com a mala enchida de sonhos, ilusões. Foi bater em Recife, alumbrada se desviou. Longas noites vendo a amanhecice do dia, sentindo nos pés a areia branca da praia, deixando-se tomar pelo vento forte e frio da primeira brisa da manhã. Na sua frente, o mar. Menina do sertão, contemplando o mar. Na ironia que impregna a vida, deram-lhe o nome da filha de iemanjá, rainha do mar. Era ela o mar do sertão. Naquelas horas lentas na praia, olhava pro mar ansiando paz, buscando onde se amparar. Ela só tinha a si, e não era pouco (mas ela não sabia ainda).
A cidade grande, tão grande, lhe fez solitária de tudo o que tinha (ela própria). Conheceu pessoas e pessoas, carregando na fala a marca do seu sertão. Nos olhos, a curiosidade de ver o mundo e achar o seu lugar. Ficou à deriva com a mala vazia de tudo o que nela levava, as ilusões forjadas. Em toda a sua perdição, nunca deixou de ser a menina do sertão de lampião. O jeito simples e humilde não escondiam sua personalidade guerreira. Era uma sobrevivente, e ela sabia. E a vida lhe fez forte dando-lhe tantas e tão grandes adversidades. Foi vencendo todas, uma a uma, sem perder a doçura de seu sertão. Mas não foi na cidade grande, tão grande, que encontrou a felicidade. No Recife das ilusões forjadas, aprendeu a viver daquele jeito que se deve aprender: sofrendo o pão que o pobre do diabo amassou. A mala, esvaziada dos sonhos, foi se enchendo de aprendizado. Num vôo mais longo, seguindo o instinto do sabiá (que "no sertão quando canta me comove, passa três meses cantando e sem cantar passa nove, porque tem a obrigação de só cantar quando chove"), foi bater em Aracaju, cidade pequena-grande que adotou pra morar. E do alto do sexto andar contempla-se olhando ao redor. "Eu cheguei lá", é o que pensa sem pestanejar, com vento mirrado lhe ardendo os olhos. Pensa no sertão, mas não sente saudade. Ele não está lá no interior de Pernambuco, está dentro dela. Olha pras luzinhas pensando no caminho que percorreu até ali e sente escorrer em sua face a lágrima da redenção.
Autora: Simone Pimentel
Um comentário:
BRUNO BELTRAO
Janinha, parabens vc eh um exemplo para qualquer um.
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